Uma das histórias mais interessantes do champagne hoje não está apenas na taça — mas na forma como ela é produzida. Fundada em 1912, no sul da Champagne, a Maison Telmont atravessa quatro gerações com uma proposta que hoje ganha ainda mais relevância — e que a posiciona como uma forte candidata a produzir o champagne mais sustentável do mundo: criar grandes vinhos sem abrir mão do compromisso com o futuro. O lema é direto — “o champagne é bom se a Terra é bela” — e não fica só no discurso. A casa vem redesenhando toda a sua operação, com foco em agricultura orgânica e regenerativa, transparência e uma meta clara de impacto reduzido. Garrafas mais leves, ausência de gift boxes e logística por navio fazem parte dessa equação.
É um movimento raro em uma região historicamente marcada por tradição — e que posiciona a Telmont de forma única dentro do universo do luxo. Na taça, isso se traduz em champagnes precisos, gastronômicos, pensados para acompanhar uma refeição inteira. Foi essa proposta que guiou o almoço no restaurante do Hotel Janeiro, com menu assinado pelo chef Álvaro Cantinho e harmonização conduzida por Hugo Bettarel, representante da maison.
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Almoço com o champagne mais sustentável do mundo
Começamos no rooftop, com vista para o Cristo e para o mar, antes de seguir para um percurso onde cada prato dialogava com diferentes expressões da Telmont — do frescor do rosé à complexidade dos rótulos mais estruturados. À mesa, esse diálogo se revela com precisão. O primeiro movimento veio em forma de um crudo de peixes com azeite de ervas e tangerina, acompanhado de uma delicada flor de abóbora recheada com queijo de cabra — leve e aromático, em sintonia com o frescor do Champagne Telmont Rosé.
Nos principais, a escolha entre o agnolotti de abóbora com gengibre, servido com caldo de cogumelos e diferentes texturas do ingrediente, e o peixe na brasa com purê de banana, manteiga noisette, quiabo tostado e rúcula selvagem, mostrava uma cozinha confortável, mas com identidade. Ambos ganharam outra dimensão com o Blanc de Blancs 2014 — mais estruturado, com acidez precisa e profundidade suficiente para sustentar sabores mais terrosos e tostados.
A sobremesa, um mil-folhas com doce de leite defumado, banana brûlée e creme pâtissier, encerrou o percurso retomando o Extra Brut. Um contraste bem resolvido entre dulçor e frescor — daqueles finais que não pesam, mas permanecem. Portanto, mais do que uma harmonização técnica, foi uma construção de narrativa — em que cada taça ampliava o prato, e cada prato revelava uma nova camada do vinho. É esse tipo de experiência que traduz, na prática, o posicionamento da maison: um champagne pensado para a mesa, com profundidade, precisão e propósito.
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Maison Telmont: origem, filosofia e impacto
A Maison Telmont é uma das histórias mais interessantes do universo do champagne hoje. Fundada em 1912, em Damery, perto de Épernay, a casa atravessa gerações mantendo um olhar atento ao futuro. Nos últimos anos, essa visão se traduz em uma transformação consistente em toda a produção: da conversão dos vinhedos para agricultura orgânica e regenerativa à revisão de embalagens e logística, com metas claras de redução de impacto até 2050.
Hoje sob o controle do grupo Rémy Cointreau, com participação minoritária de Leonardo DiCaprio, a Telmont se tornou a primeira maison a conquistar a certificação Regenerative Organic Certified (ROC), que vai além do orgânico ao considerar solo, biodiversidade e bem-estar.
Na taça, esse compromisso aparece de forma precisa, em rótulos com vocação gastronômica, como o Réserve Extra Brut — um blend de sete safras, com notas de pera e amêndoas levemente tostadas, textura cremosa e final longo. Um champagne que une terroir, técnica e uma visão mais consciente de futuro — ainda raro nesse universo.
Por Renata Araújo. Abril de 2026.
Fotos: Renata Araújo e Dhani B

