Confesso que, antes de embarcar no AmaMelodia, não sabia exatamente o que esperar, afinal, era a minha primeira experiência em um cruzeiro fluvial. Depois de sete noites navegando pelo Rio Magdalena, posso dizer que foi também uma das formas mais interessantes que já encontrei de conhecer um país. No itinerário Magic of Colombia, da AmaWaterways, viajamos de Barranquilla a Cartagena passando por cidades coloniais, comunidades ribeirinhas, áreas de natureza preservada e lugares que dificilmente conheceríamos de outra forma, como Mompox e Palenque. Ao longo do caminho, descobrimos uma Colômbia muito diferente daquela que costuma aparecer nos roteiros mais tradicionais. E talvez essa tenha sido a maior surpresa da viagem. Em vez de dias inteiros apenas navegando, cada parada trazia uma nova história, cenário ou conexão com a cultura local. O fato de o AmaMelodia receber no máximo 64 hóspedes também faz toda a diferença: a atmosfera é intimista, o serviço extremamente personalizado e o ritmo muito mais próximo de um hotel boutique flutuante do que de um grande cruzeiro.
Ao longo dos sete dias, alternamos passeios de observação de fauna e flora, caminhadas por cidades coloniais, visitas a comunidades locais e momentos de descanso no navio. Foi uma viagem em que o percurso teve tanto protagonismo quanto os destinos — e é justamente isso que a torna tão especial.
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Como é viajar a bordo do AmaMelodia
Antes de falar sobre as paradas ao longo do Rio Magdalena, vale contar um pouco sobre o AmaMelodia, o navio que seria nossa casa durante os sete dias seguintes. Com capacidade para apenas 64 hóspedes distribuídos em 32 cabines, ele está muito longe da escala dos grandes cruzeiros marítimos. O tamanho reduzido da embarcação muda completamente a dinâmica da viagem. Em poucos dias, a tripulação já sabia nossos nomes, preferências e até qual bebida costumávamos pedir durante o happy hour. O atendimento é extremamente próximo e personalizado, criando uma atmosfera muito mais parecida com a de um hotel boutique do que com a de um navio tradicional. Certamente a atenção e o carinho de toda a equipe do Ama fez a diferença.
A cabine era espaçosa, com cerca de 22 m², com uma cama king-size super confortável — daquelas que fazem você dormir em poucos minutos depois de um dia inteiro de passeios —, uma mesa de apoio, televisão, dois armários grandes e bastante espaço para organizar roupas e malas. Detalhe importante, já que seriam sete dias a bordo! Desfiz minha mala logo no primeiro dia e pendurei todos os vestidos nos cabides. Ou seja, sem aquela sensação de viver dentro da mala durante a viagem. Aliás, todas as cabines do AmaMelodia contam com varanda, um detalhe que faz bastante diferença em uma viagem como essa. E ainda uma varanda francesa, com portas de vidro do chão ao teto, que valorizavam ainda mais a vista durante nossa navegação pelo Rio Magdalena. O banheiro também tinha um bom espaço, com duas pias, uma grande bancada para organizar os itens pessoais, amenities e um ótimo chuveiro.
A estrutura do Cruzeiro da AmaWaterways na Colômbia
Como o AmaMelodia recebe poucos hóspedes, toda a operação gastronômica acontece em um único restaurante. Os menus mudavam diariamente e combinavam pratos inspirados na culinária colombiana com opções internacionais. Ao longo da semana, porém, a experiência ia muito além do salão principal. Em um dos dias, tivemos um café da manhã caribenho servido ao ar livre no deck, enquanto navegávamos pelo Rio Magdalena. Em outro, um almoço barbecue trouxe ainda mais variedade à programação gastronômica. Pequenos detalhes como esses ajudavam a quebrar a rotina e deixavam cada dia diferente do anterior.
Aliás, todas as refeições estão incluídas na tarifa, assim como bebidas não alcoólicas. Durante o almoço e o jantar, vinho e cerveja também são servidos sem custo adicional. Já no fim da tarde, entre 18h e 19h, acontece o Sip & Sail, um happy hour diário com drinques e outras bebidas incluídas.
No Luna Deck ficam a piscina, as espreguiçadeiras e algumas das áreas de convivência mais agradáveis do navio. A piscina não é grande, mas era perfeita para se refrescar depois dos passeios e aproveitar um pouco a navegação pelo Rio Magdalena. Por ali, também aconteciam algumas atividades, como aulas de alongamento e yoga. Já no lounge, onde fica o bar principal, acontecem as palestras sobre a cultura colombiana e os destinos que fazem parte do roteiro Magic of Colombia,
Outro recurso que usamos bastante durante a viagem foi o aplicativo da AmaWaterways. Toda a programação diária fica disponível ali: horários das excursões, informações sobre os destinos, atividades a bordo e detalhes da reserva. Parece um detalhe simples, mas ajudava bastante a organizar os dias e acompanhar tudo o que aconteceria ao longo da semana.
Mas o que realmente diferencia este roteiro não está dentro do navio. Está do lado de fora. Ao contrário dos cruzeiros marítimos, em que muitas vezes passamos dias inteiros navegando, aqui praticamente todos os dias traziam uma nova parada, um novo passeio ou uma oportunidade de conhecer um pedaço diferente da Colômbia.
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Dia 1: embarque em Barranquilla e primeiras impressões
Nosso embarque aconteceu em Barranquilla, cidade localizada na foz do Rio Magdalena e ponto de partida do roteiro Magic of Colombia. Como chegamos já no fim da tarde, fomos direto para o AmaMelodia e aproveitamos as primeiras horas para conhecer o navio e nos instalar na cabine. Na nossa primeira noite a bordo, aconteceu a tradicional apresentação da tripulação. Capitão, guias, equipe do restaurante, bar e demais áreas do navio se reuniram para dar as boas-vindas aos hóspedes e apresentar um panorama do que nos aguardava nos dias seguintes, além das instruções de segurança obrigatórias.
Também foi nosso primeiro contato com a gastronomia do navio. Depois do jantar, aproveitamos para explorar um pouco mais as áreas comuns e descansar. Afinal, no dia seguinte começariam as primeiras excursões e a descoberta daquela Colômbia que viemos conhecer.
Dia 2: Usiacurí e a tradição da iraca
O primeiro dia completo de viagem começou ainda em Barranquilla. Podiamos escolher entre um tour panorâmico pela cidade ou uma visita a Usiacurí, um pequeno município localizado a cerca de uma hora de distância. Nós optamos pela segunda opção. Com pouco mais de 13 mil habitantes, Usiacurí é conhecida principalmente pelo trabalho artesanal feito com a iraca, uma fibra vegetal utilizada na produção de bolsas, chapéus, luminárias, cestos e peças decorativas. A tradição é passada de geração em geração há mais de 90 anos e hoje representa cerca de 70% da economia local.
Ao caminhar pelas ruas da cidade, o artesanato está por toda parte. Muitas casas têm portas e janelas decoradas com desenhos inspirados na própria iraca, enquanto pequenas oficinas familiares mantêm viva uma técnica que faz parte da identidade da região. Segundo os moradores, já existem mais de 50 tipos diferentes de tramas e técnicas de tecelagem. Durante nosso passeio, também participamos de um workshop de palma de iraca. O que parecia relativamente simples quando observado nas mãos dos artesãos se revelou muito mais complicado na prática, rs. É um trabalho manual impressionante, que exige muita paciência, precisão e anos de prática.
Outro personagem importante da história local é Julio Flórez, um dos maiores representantes do romantismo na América Latina. Sua antiga residência, hoje transformada em museu, ajuda a contar um pouco da relação entre o poeta e a cidade.
De volta ao AmaMelodia, começamos a perceber uma das características mais marcantes da viagem: o ambiente intimista criado pelo tamanho reduzido do navio. Como éramos os primeiros brasileiros a navegar no AmaMelodia, a curiosidade era grande dos dois lados, e as conversas com a tripulação e os guias passaram a fazer parte da rotina desde os primeiros dias.
Naquela noite, seguimos navegando pelo Rio Magdalena rumo a Mompox. Eu ainda não fazia ideia, mas a cidade acabaria sendo uma das maiores surpresas da viagem.
Dia 3: navegando pelo Rio Magdalena e nossa chegada a Mompox
O terceiro dia começou com um passeio de barco pelas áreas alagadas próximas ao Rio Magdalena. Ao longo do percurso, observamos aves, búfalos, pescadores e pequenas comunidades que vivem às margens do rio, uma ótima introdução à paisagem que nos acompanharia durante boa parte da viagem. Foi também uma oportunidade de entender melhor a importância do Magdalena para a região. Em muitos trechos, o rio continua sendo a principal via de transporte e uma fonte essencial de sustento para as comunidades locais.
De volta ao AmaMelodia, seguimos navegando rumo a Mompox. E foi durante esse trajeto que começamos a observar uma das cenas mais marcantes da viagem: moradores acenando da margem, crianças brincando na água e pequenas embarcações cruzando o caminho do navio.
Chegamos a Mompox no fim da tarde. Fundada em 1540 às margens do Rio Magdalena, a cidade preserva boa parte de sua arquitetura colonial e parece ter encontrado um ritmo próprio, muito diferente do restante do país. Naquela noite, aproveitamos para caminhar um pouco pelo centro histórico e acabamos encontrando uma celebração local chamada Mompox Midnight. A atmosfera lembrava uma grande festa de rua, com apresentações de cúmbia, música, dança e barracas espalhadas pelas ruas da cidade. Foi nosso primeiro contato com Mompox — e um belo aperitivo para o dia seguinte.
Dia 4: um dia inteiro em Mompox
Se a noite anterior serviu como introdução, foi no quarto dia que realmente conhecemos Mompox. A programação começou cedo — bem cedo mesmo. Antes do nascer do sol, embarcamos em uma nova excursão de barco para observar a fauna e a flora da região. O horário pode parecer desafiador, mas valeu a pena. Além da luz bonita do amanhecer, foi um dos melhores momentos para observar aves e outros animais que habitam os arredores da cidade.
De volta à terra firme, seguimos para um passeio guiado de tuk-tuk pelo centro histórico. Mompox é uma das cidades coloniais mais bem preservadas da Colômbia e foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO. Caminhar por suas ruas é quase como voltar no tempo. Igrejas centenárias, casarões coloniais, praças tranquilas e o Rio Magdalena sempre presente ao fundo ajudam a compor um cenário que parece pouco afetado pela passagem dos séculos.
Foi também em Mompox que conhecemos de perto a famosa tradição da filigrana, técnica artesanal que utiliza finíssimos fios de metal para criar peças extremamente delicadas. Durante um workshop, tivemos a oportunidade de observar o trabalho dos artesãos e entender melhor por que a cidade se tornou uma referência nesse tipo de joalheria.
Mas, para mim, uma das melhores partes de Mompox não estava necessariamente nos passeios programados. Como o AmaMelodia permaneceu atracado na cidade por dois dias, tivemos tempo para explorá-la sem pressa. Caminhar sem destino pelas ruas, sentar em um café, observar a rotina local e simplesmente absorver a atmosfera do lugar acabou sendo tão interessante quanto. Mais do que uma lista de atrações, a cidade convida o visitante a desacelerar. E, em um roteiro cheio de descobertas, foi ali que sentimos a viagem mudar de ritmo.
Dia 5: Santa Bárbara de Pinto e a vida às margens do Rio Magdalena
Depois de dois dias em Mompox, voltamos a navegar pelo Rio Magdalena. A manhã começou de uma forma diferente: com um café da manhã caribenho servido ao ar livre no deck do AmaMelodia. Enquanto navegávamos, uma das partes mais interessantes era justamente observar a vida acontecendo nas margens do rio. Pequenas comunidades, casas simples, pescadores em suas embarcações e famílias inteiras acenando para o navio ajudavam a reforçar uma sensação que nos acompanhou durante toda a viagem: a de estar conhecendo uma Colômbia que dificilmente encontraríamos em um roteiro tradicional.
A programação daquele dia também trouxe um mergulho na cultura local. Antes da chegada a Santa Bárbara de Pinto, um grupo folclórico subiu a bordo para apresentar ritmos tradicionais da região, incluindo a cúmbia, uma das expressões culturais mais importantes da Colômbia. Além da apresentação, os músicos explicaram os instrumentos utilizados e, claro, nos convidaram para dançar.
Chegamos a Santa Bárbara de Pinto durante a tarde. A pequena cidade, às margens do Magdalena, oferece um retrato bastante autêntico da vida no interior colombiano. Durante a visita guiada, conhecemos artesãos que produzem redes de pesca manualmente, vimos a confecção artesanal de tabaco e aprendemos um pouco mais sobre as tradições que continuam sendo transmitidas entre gerações. O mais interessante foi perceber como o turismo ainda é algo relativamente recente por ali. A presença do AmaMelodia ajuda a gerar renda para a comunidade e cria oportunidades para que visitantes conheçam tradições que dificilmente chegariam aos roteiros convencionais pelo país.
Dia 6: Calamar, Palenque e uma das histórias mais fascinantes da Colômbia
O penúltimo dia de navegação começou em Calamar, uma pequena cidade fundada em 1848 e conhecida por sua forte herança cultural. A visita aconteceu de uma forma divertida: exploramos a cidade em uma “paola”, espécie de táxi-bicicleta bastante comum na região. Além de conhecer alguns dos principais pontos locais, também assistimos a apresentações folclóricas que ajudam a preservar a influência africana presente na cultura colombiana.
Mas foi durante a tarde que aconteceu uma das visitas mais marcantes de toda a viagem. Seguimos para San Basilio de Palenque, considerado o primeiro povoado livre das Américas. Fundado no século XVII por africanos escravizados que conseguiram escapar durante o período colonial, o local preserva até hoje tradições, costumes e uma identidade cultural única, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Além disso, Palenque não teme delegacia nem presença da polícia estatal. A segurança e a ordem social são mantidas pela própria comunidade através da Guardia Cimarrona, uma guarda comunitária e desarmada que resolve conflitos e protege o patrimônio local.
A visita teve um significado ainda mais especial porque um dos nossos guias, Erick, nasceu em Palenque. Caminhar pelas ruas ao seu lado tornou tudo mais pessoal. Era impossível não perceber o orgulho com que ele contava a história de sua comunidade e compartilhava aspectos da cultura local. Palenque foi um dos lugares que mais nos fizeram refletir durante a viagem. A influência africana aparece na música, na gastronomia, nas tradições locais e até no idioma falado pela comunidade, considerado um dos grandes patrimônios culturais da região. Mais do que um passeio, foi uma oportunidade de compreender um capítulo fundamental da história da Colômbia e das Américas.
De volta ao navio, participamos do tradicional coquetel do capitão, seguido pelo jantar de despedida. Depois de quase uma semana juntos, passageiros e tripulação já se conheciam pelo nome, tornando aquele momento ainda mais especial.
Dia 7: Cartagena, a grande despedida
Acordar em Cartagena foi uma mudança de cenário considerável depois de tantos dias navegando por pequenas cidades e comunidades ribeirinhas. Patrimônio Mundial da UNESCO, Cartagena é uma das cidades mais visitadas da Colômbia e encerra o roteiro de forma perfeita. O AmaMelodia permanece atracado próximo ao centro histórico, facilitando bastante os deslocamentos para os passeios.
Pela manhã, fizemos um tour pela cidade amuralhada, explorando ruas coloridas, igrejas históricas, praças e casarões coloniais que ajudaram a transformar Cartagena em um dos destinos mais emblemáticos do Caribe.
À tarde, optamos por visitar Getsemaní, um dos bairros mais vibrantes da cidade. Repleto de murais, cafés, galerias e espaços culturais, o bairro mostra uma Cartagena mais contemporânea e criativa, sem perder suas raízes históricas.
Naquela noite, tivemos também o jantar especial Bolívar Dining Experience, um menu degustação servido em um espaço reservado do navio. Foi uma maneira agradável de encerrar oficialmente a viagem antes do desembarque na manhã seguinte.
Dia 8: desembarque
Depois do café da manhã, chegou a hora de nos despedirmos do AmaMelodia. Sete noites podem parecer muito tempo antes do embarque, mas passaram surpreendentemente rápido. Talvez porque cada dia trouxesse uma descoberta diferente. Talvez porque o Rio Magdalena tenha revelado uma Colômbia que não esperávamos encontrar. O fato é que desembarcamos em Cartagena com a sensação de termos conhecido um lado do país que permanece fora do radar da maioria dos viajantes.
Vale a pena?
Embora seja mais conhecida por seus cruzeiros fluviais na Europa, a AmaWaterways também opera roteiros na África, no Sudeste Asiático e, agora, na América do Sul. Atualmente, a companhia conta com uma frota de mais de 30 embarcações e já anunciou planos de expansão para os próximos anos. Na Colômbia, porém, a proposta assume um caráter um pouco diferente. Mais do que uma viagem focada no navio, o roteiro pelo Rio Magdalena funciona quase como uma expedição cultural, com embarcações menores, clima mais descontraído e uma conexão muito mais próxima com os destinos visitados. E para viabilizar a operação ao longo do Rio Magdalena, a AmaWaterways construiu os atracadouros utilizados durante a viagem e vem trabalhando junto às comunidades visitadas em iniciativas ligadas à educação, infraestrutura e desenvolvimento local.
Depois de sete noites navegando pela Colômbia, ficou claro que o diferencial desta viagem não está apenas no conforto do navio, mas na forma como ela aproxima os viajantes da cultura local, das comunidades e da história do país. Para nós, essa foi a grande descoberta do Rio Magdalena: uma Colômbia menos conhecida, mais autêntica e surpreendentemente diversa.
Texto e fotos por Duda Vétere. Junho de 2026.


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