Alta gastronomia com raízes profundas e olhar atual: assim é o Madame Olympe, de Claude Troisgros, no Leblon — que agora apresenta seu segundo menu degustação, reforçando a conexão entre técnica, sensibilidade e narrativa. Em menos de um ano de funcionamento, o restaurante conquistou sua primeira estrela Michelin, reconhecimento que reforça a consistência de uma proposta que resgata o espírito do lendário Olympe, casa que marcou época nos anos 80 no Rio. O nome é uma homenagem à sua mãe, Olympia — uma italiana forte e inspiradora, que teve papel essencial em sua formação como chef. Estive na abertura para convidados, em agosto de 2025 e retorno com um menu que mostra como essa cozinha evoluiu sem perder a essência: sofisticada, intuitiva e com alma familiar. Com apenas 20 lugares, o ambiente segue íntimo e preciso — uma mesa onde tradição e modernidade se encontram no mesmo prato. “Foi uma escolha de coração”, disse Claude, em um bate-papo descontraído. “Queria voltar a uma cozinha de degustar, como aprendi com meus pais e avós. Mas com a presença feminina e a energia da Jessica, que traz uma nova camada ao que já era forte.”
A chef Jessica Trindade, braço direito de Claude há quase 20 anos, comanda o dia a dia da cozinha. Para ela, que estagiou no Olympe aos 19 anos, estar à frente do Madame hoje é fechar um ciclo e abrir outro, com a mesma emoção e ainda mais responsabilidade.
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Madame Olympe no Leblon: nova fase da gastronomia de Claude Troisgros
O restaurante marca um novo momento na trajetória de Claude no Rio. A proposta? Reviver o espírito do icônico Olympe — que funcionou por 17 anos no Jardim Botânico e encerrou as atividades durante a pandemia —, mas com olhar renovado. Claude relembra: “Desde que o Olympe acabou, eu não tinha mais uma bandeira de alta gastronomia. Comecei bistrôs, como o Chez Claude e a Cantina, mas sentia falta de uma cozinha mais elaborada, mais sofisticada.”
O Madame Olympe ocupa o espaço onde funcionava o Mesa do Lado, projeto temporário do chef que explorava uma experiência sensorial com sons, luzes e sabores. E Claude reforça: “O Madame Olympe é a bandeira, é a mesa do chef. Chez Claude é o lado mais descontraído, a Cantina tem a herança italiana da minha mãe e da minha avó. Aqui, a gente retoma a cozinha intuitiva, com técnicas apuradas e muita personalidade.”
Alta gastronomia repensada: menu enxuto, ingredientes protagonistas
Em maio de 2025, a chef Jessica Trindade passou por uma imersão em cozinhas europeias, incluindo o Maison Troisgros, em Roanne. O menu degustação traz oito passos sazonais, com pratos autorais que surpreendem pela delicadeza e clareza de sabores. Para quem prefere uma experiência mais curta, há também a opção com quatro etapas, mantendo a essência da proposta. Nada é excessivo — cada criação tem um propósito, uma história.
No segundo menu degustação do Madame Olympe, a conexão entre cozinha e arte se torna ainda mais evidente — uma construção que vai além do sabor e se estende à forma como cada prato é apresentado. O percurso de oito etapas chega à mesa acompanhado por ilustrações criadas pela própria chef Jessica Trindade, que funcionam quase como uma introdução sensorial a cada momento da experiência. A refeição começa com os pães da casa, com o sensacional croissant rolls, biscoito de polvilho ao curry e focaccia crisp, e o snack que já antecipa a delicadeza técnica da cozinha: a cavaquinha com siri, ovas e pimenta vermelha levemente adocicada e defumada.
Em seguida, surgem pratos que provocam o olhar antes mesmo do paladar — como uma criação que remete visualmente a uma ostra, mas surpreende ao revelar outras camadas de sabor. Entre os destaques, a vieira na brasa com purê de azedinha, beurre blanc e rabanete negro traz um equilíbrio preciso entre acidez e untuosidade, enquanto o clássico peixe com banana aparece em releitura, com peixe do dia, escama feita com a casca da fruta e molho de castanha de caju — um prato que traduz bem a identidade da casa, entre técnica francesa e ingredientes brasileiros. Já o filé mignon envolto em nori, servido com couve de Bruxelas e arroz de altitude ao jus de poulet, reforça essa mistura de referências com elegância.
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A sobremesa segue a mesma linha de leveza e construção narrativa, com os ovos nevados acompanhados de sorvete de kefir, baunilha brasileira, tamarindo e suspiro, encerrando o percurso de forma delicada e equilibrada. Para finalizar, o café vem acompanhado de um mochi de paçoca, em uma leitura brasileira de uma tradição oriental, que fecha a experiência com um gesto simbólico.
Harmonização e ambiente: um convite à experiência sensorial
A harmonização é opcional e apresenta uma seleção refinada de vinhos de mínima intervenção, curadoria de Camila Cecchi e Haroldo Nunes. Os rótulos respeitam a natureza de cada prato e expandem a experiência sem competir com os sabores.
O ambiente, assinado por Ricardo Hachiya e Luiza Fernandes, foge de ostentações. A iluminação de Monica Lobo valoriza a textura dos materiais, enquanto a escultura luminosa de Thomaz Velho — feita em papel de arroz — abraça o teto com suavidade. O sofá de entrada, desenhado por Luan Del Savio, antecipa a atmosfera fluida da noite. Quem conheceu o Mesa do Lado, não vai nem perceber que está no mesmo lugar.
Outro destaque sutil: os uniformes, criados pela Oficina (masculino) e Andrea Marques (feminino), são elegantes sem serem formais, reforçando a identidade visual da casa com discrição e estilo.
Um restaurante novo no Leblon que olha para frente com raízes profundas
O Madame Olympe representa mais que um novo capítulo na carreira de Claude Troisgros. É também um símbolo da maturidade de uma cozinha que entende suas raízes, mas escolhe evoluir com leveza. Em suas palavras: “Quis resgatar a verdade. Um menu mais curto, uma cozinha limpa, muito sabor. E liberdade.”

Sem horário fixo para reservas e com foco na experiência integral — da iluminação ao prato final —, o novo restaurante do Claude Troisgros no Leblon já nasce com alma de clássico. Um endereço que celebra o sabor, a sensibilidade e o tempo certo das coisas.
Ver Claude Troisgros — um dos chefs precursores e mais relevantes da alta gastronomia no Brasil — voltar ao Leblon com esse espírito renovado é um privilégio para a cidade. Mais do que inaugurar um novo restaurante, o Madame Olympe marca a retomada de uma cozinha que alia técnica, memória afetiva e inovação, conduzida por um nome que ajudou a moldar o paladar brasileiro. Uma conquista para quem valoriza a boa mesa e para um bairro que é referência gastronômica no Rio.
Serviço
- Endereço: Rua Conde Bernadotte, Leblon – Rio de Janeiro
- Funcionamento: Jantar, de terça-feira à sábado, de 18h30 às 00hs. Reservas pelo whatsapp (21)994830075 (sem horário fixo)
- Capacidade: 20 lugares
- Menu: Degustação – 8 etapas, R$540 (harmonização opcional por mais R$420), 4 etapas R$ 440 (e harmonização opcional por mais R$280).
Por Renata Araújo. Agosto de 2025. Atualizado em Abril de 2026.
Fotos: Renata Araújo e Tomás Rangel

