Restaurantes em BH

Restaurantes em BH: como Leo Paixão e uma nova geração de chefs movimentam a gastronomia da cidade

Belo Horizonte nunca precisou provar sua relevância gastronômica. A cidade sempre teve uma relação muito própria com comida, hospitalidade e mesa cheia. Mas esta recente viagem me fez perceber outra coisa: BH está mais sofisticada, mais diversa e mais segura da própria identidade. O convite veio de Leo Paixão, chef que ajudou a projetar a gastronomia mineira contemporânea para além do estado e hoje está à frente de um grupo de restaurantes que movimenta diferentes regiões da cidade. E talvez seja justamente aí que Belo Horizonte mais surpreenda atualmente: na capacidade de unir tradição, técnica, informalidade e repertório cultural sem perder personalidade.

Mais do que uma cena “da moda”, existe maturidade. E existe também algo que continua muito particular em Minas Gerais: a hospitalidade.É engraçado como em Belo Horizonte as conversas parecem começar naturalmente. Do motorista de aplicativo ao garçom, passando pelos próprios chefs, existe um orgulho muito genuíno da cidade — e uma vontade real de fazer você gostar dali também. Tarefa fácil, aliás.

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Leo Paixão e os restaurantes que ajudaram a transformar Belo Horizonte

À frente do Grupo Glouton, Leo Paixão construiu um dos projetos gastronômicos mais relevantes de Minas Gerais. Médico formado pela UFMG, ele trocou a carreira pela cozinha, estudou na tradicional escola Ferrandi, em Paris, e passou por restaurantes de chefs como Joël Robuchon e Pierre Gagnaire antes de voltar ao Brasil. Foi em 2013 que abriu o Glouton, no bairro de Lourdes — restaurante que rapidamente se tornou uma das principais mesas da cidade e projetou o chef nacionalmente. Hoje, o grupo inclui também Ninita, Nicolau Bar da Esquina, Mina Jazz Bar e Macaréu. Cada casa tem linguagem própria, mas todas compartilham algo raro: identidade clara.

Glouton: técnica francesa, referências mineiras e mudança constante

O Glouton segue como a grande assinatura de Leo Paixão. A cozinha cruza técnica francesa clássica com ingredientes e referências mineiras sem cair em caricaturas regionais. Durante nossa conversa, perguntei a Leo como ele enxerga a evolução do restaurante nesses quase 14 anos. “Não sou eu que revisito a comida mineira. A comida mineira está lá e a gente só referencia ela, reverencia. A única coisa constante no Glouton é a eterna mudança”, me disse. A frase explica bastante sobre o restaurante em Belo Horizonte.

O menu muda. O serviço muda. O formato muda. Mas a essência permanece. Hoje, a casa opera apenas em formato à la carte, decisão tomada, segundo o chef, para atender melhor ao perfil do público atual. Entre os pratos, aparecem combinações que unem conforto e sofisticação sem excesso de intervenção. Tudo muito técnico, mas sem perder fluidez.

O ambiente também ajuda: elegante sem formalidade rígida, com clima de casa contemporânea que funciona tanto para um jantar longo quanto para uma ocasião especial.

Ninita: um italiano mineiro ao lado do Glouton – restaurante em BH

Literalmente ao lado do Glouton está o Ninita, restaurante criado em homenagem à bisavó italiana de Leo Paixão. E talvez seja justamente o mais afetivo dos projetos do grupo. A cozinha mistura referências italianas e mineiras com leveza e bom humor. Risonis, massas frescas e receitas italianas aparecem ao lado de ingredientes como quiabo, porco e jabuticaba sem soar forçado. O ambiente é dos mais agradáveis da cidade. Mais solar, mais descontraído e extremamente convidativo. É o tipo de restaurante que funciona tanto para almoço demorado quanto para jantar animado entre amigos.

Nicolau Bar da Esquina: brunch disputado e atmosfera cosmopolita

No Belvedere — bairro residencial e sofisticado da zona sul de Belo Horizonte — fica o Nicolau Bar da Esquina. E talvez tenha sido um dos lugares que mais me surpreenderam na viagem. O clima é cosmopolita, vibrante e muito bem resolvido. Em alguns momentos, honestamente, me senti em Nova York em pleno brunch de domingo. Um dos mais disputados da cidade, aliás, reúne desde pratos clássicos até receitas com referências mineiras.

O cardápio cruza referências mineiras, latino-americanas e contemporâneas em uma proposta muito mais interessante do que simplesmente replicar fórmulas nova-iorquinas. Entre ceviches peruanos, parrilla uruguaia e argentina, provoletas, mollejas, ovos, pães artesanais e coquetelaria diurna, existe um equilíbrio muito natural entre conforto e sofisticação.

O pão de queijo recheado foi um dos pratos que mais gostei: grande, dourado e servido aberto, recheado com pastrami e picles de cebola, em uma combinação intensa e muito bem equilibrada entre gordura, acidez e textura. Um prato confortável, indulgente e muito mineiro, mas apresentado de forma contemporânea. Também provei o Bloody Mary da casa, intenso e equilibrado, servido praticamente como uma pequena refeição líquida, cheio de frescor e personalidade — perfeito para acompanhar o ritmo mais longo e descontraído do brunch.

A música ao vivo ajuda bastante na experiência. Presente, mas sem competir com as conversas. A coquetelaria também merece atenção. Não à toa, o Nicolau foi eleito Melhor Bar do Brasil pela revista Prazeres da Mesa.

Macaréu e Mina Jazz Bar: duas propostas diferentes dentro do mesmo grupo

Ao lado do Nicolau fica o Macaréu, projeto mais recente de Leo Paixão, onde dei uma passada para comer a sobremesa. A proposta aqui gira em torno de peixes e frutos do mar na brasa, em uma cozinha contemporânea com execução precisa e ambiente sofisticado. Mesmo dentro de um shopping, o restaurante consegue escapar da atmosfera impessoal típica desses espaços. Há cuidado estético, serviço atento e um menu muito bem estruturado.

O Léo me ofereceu um clássico da casa: o Pudim Abade de Priscos. A versão do restaurante ganha um caramelo profundo e levemente amargo, equilibrado pelos crocantes de laranja que trazem textura e frescor cítrico ao prato. A apresentação minimalista reforça a elegância silenciosa da sobremesa — bonita sem esforço, sofisticada sem exagero. Daqueles doces que pedem calma, colherada sem pressa e inevitavelmente terminam em silêncio satisfeito.

Já no centro da cidade, o Mina Jazz Bar segue outra direção. Instalado em um prédio antigo, mistura música ao vivo, ambiente retrô, iluminação baixa e coquetelaria muito bem executada. Um lugar pensado menos para pressa e mais para permanência.

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Okinaki: comida de rua asiática contemporânea em Belo Horizonte

Se Leo Paixão representa uma geração que consolidou Belo Horizonte como destino gastronômico, o casal Gabriella Guimarães e Guilherme Furtado mostra para onde a cidade também está caminhando. Os dois passaram sete anos vivendo e trabalhando na Espanha, incluindo experiências em restaurantes importantes da gastronomia espanhola contemporânea, como Enigma, 41º Grados, Bodega 1900 e Moments. Guilherme trabalhou diretamente ao lado dos irmãos Adrià, referências absolutas da cozinha espanhola moderna. Mas foi a cozinha asiática que acabou moldando grande parte da identidade dos chefs.

A cozinha passeia por diferentes culturas asiáticas com segurança técnica e muita personalidade. Tem ssäm de atum, kinilaw filipino — aquele ceviche ácido, fresco e cheio de camadas que você não sabia que precisava provar —, além da berinjela com missô, um dos pratos que mais me marcou pela profundidade de umami e pelo equilíbrio quase silencioso de sabores que só uma cozinha muito bem treinada consegue alcançar. A gyoza também merece destaque: massa fina, perfeitamente selada, recheio suculento e execução precisa, sem excessos.

Mas talvez um dos aspectos mais impressionantes da casa esteja na carta de saquês, provavelmente uma das mais sofisticadas da cidade. Os rótulos são importados diretamente do Japão e incluem versões orgânicas, não pasteurizadas e de fermentação espontânea — entre elas um Junmai produzido pelo método champenoise, um saquê orgânico premiado de Fukushima e um dos rótulos mais vendidos do Japão.

Aqui, definitivamente, não existe espaço para “saquê com sal”. A bebida é tratada com o mesmo cuidado dedicado ao vinho em grandes restaurantes: protagonista tanto na taça quanto na harmonização da experiência. E isso aparece até nos detalhes mais inesperados.

Um dos drinks mais interessantes da casa é o chamado “drink sólido”: um saketini de melão em que a fruta é impregnada em saquê com raspas de limão e pimenta, servida em cubos sobre a própria casca apoiada em pedras de gelo. Um daqueles pratos — ou melhor, drinks — que ajudam a explicar de onde vem a sofisticação do Okinaki.

Tudo parece despretensioso à primeira vista. Mas existe muito estudo, repertório e precisão por trás dessa aparente informalidade. O tipo de lugar que faz você perceber que comida de rua, quando bem traduzida, pode facilmente se aproximar da alta gastronomia — e que Belo Horizonte vai muito além dos clichês gastronômicos mais óbvios.

Parallel: a memória afetiva da Espanha traduzida em restaurante

Na mesma esquina está o Parallel, dedicado à cozinha espanhola. Mas não aquela versão caricata que vive de paella e sangria. A proposta respeita sabores clássicos e técnicas tradicionais, reinterpretadas de forma contemporânea — reflexo direto da vivência dos chefs na Espanha. O restaurante parece menos interessado em impressionar e mais em construir profundidade.

Começamos pelo gazpacho transparente, um dos pratos mais interessantes da noite. A receita parte da versão tradicional espanhola, feita com tomate, pepino, pimentão, alho e azeite, mas passa por um processo de clarificação que transforma tudo em um líquido cristalino e extremamente concentrado em sabor. O resultado é delicado, fresco e surpreendente: visualmente leve, mas cheio das camadas do tomate maduro, da acidez e do azeite.

Também chegaram à mesa as famosas azeitonas esferificadas inspiradas no El Bulli. Aqui, porém, elas aparecem menos como demonstração de cozinha molecular e mais como um aceno respeitoso à trajetória gastronômica que moldou os chefs. A película fina se rompe na boca liberando um líquido intenso e salino — um gesto técnico sutil, mas cheio de memória.

E talvez seja justamente aí que o Parallel funcione tão bem: a técnica nunca ocupa o centro da experiência. Ela aparece nos detalhes — no tomate maduro do pan con tomate, na delicadeza do tartare, na textura precisa do polvo e até na seleção dos embutidos espanhóis, servidos na temperatura correta para revelar aroma e untuosidade.

Há também uma sensualidade muito própria da cozinha espanhola: azeite generoso, pratos para compartilhar, vinho servido sem pressa e aquela atmosfera em que o jantar naturalmente se alonga. O tipo de lugar em que a experiência parece pensada menos para impressionar e mais para fazer as pessoas permanecerem.

A refeição seguiu entre anchoas espanholas intensas e delicadas, uma tortilla cremosa no centro — exatamente como nas boas versões de Madri e Barcelona — além de um arroz extremamente cremoso e cheio de sabor do mar, daqueles pratos que silenciam a mesa por alguns segundos.

Entre os destaques, o polvo grelhado servido sobre batatas douradas e molho profundo tinha textura impecável: macio sem perder estrutura. Também provei um tartare fresco e muito equilibrado, finalizado com ervas e azeitonas. Para acompanhar, o vinho espanhol Benplantat trouxe frescor e mineralidade na medida certa para os frutos do mar e as tapas da casa.

O Parallel tem essa capacidade rara de soar sofisticado sem precisar afirmar isso o tempo inteiro. Tudo parece fluido, natural e muito bem resolvido — da técnica às escolhas mais simples da mesa.

Bar Vértice: liberdade criativa e drinks autorais

Já o Bar Vértice é o lado mais livre e experimental da dupla. A casa aposta em coquetelaria autoral, combinações inusitadas e uma cozinha enxuta voltada ao compartilhamento. Você pode escolher em comer lá mesmo ou dar uma passadinha pós jantar.

O menu muda com frequência e o clima é deliberadamente mais informal. Mesas na calçada, ambiente vivo e uma atmosfera muito ligada ao jeito belo-horizontino de ocupar a rua. Os drinks transitam entre referências asiáticas, mediterrâneas e latino-americanas sem excesso de firula. Tudo parece leve, mas pensado.

Dona Lucinha: a cozinha mineira que continua definindo Belo Horizonte

Mas em uma viagem gastronômica por Belo Horizonte, algum restaurante tradicional precisava entrar no roteiro. E foi exatamente aí que surgiu o Dona Lucinha.

Símbolo da cozinha mineira clássica, o restaurante preserva receitas familiares, sabores afetivos e uma relação muito direta com a memória gastronômica do estado. Tudo aparece de forma generosa, sem excesso de releitura ou necessidade de modernização. Depois de dias circulando entre cozinhas contemporâneas, referências internacionais, brunches disputados e coquetelaria autoral, terminar no Dona Lucinha fez ainda mais sentido.

Porque talvez o mais interessante de Belo Horizonte hoje seja justamente isso: a cidade consegue circular entre Minas, França, Espanha, Ásia e América Latina sem perder a própria raiz no caminho.

Belo Horizonte vive uma fase especialmente interessante – restaurantes em BH

O mais interessante dessa volta a Belo Horizonte talvez tenha sido perceber que a cidade não tenta mais se encaixar em uma tendência gastronômica específica. BH simplesmente amadureceu.

Existe repertório técnico, diversidade cultural, chefs mais autorais e uma cena que consegue ser sofisticada sem perder informalidade — característica que sempre fez parte da cidade. E talvez seja exatamente isso que torne Belo Horizonte um dos destinos gastronômicos mais interessantes do Brasil hoje. Principalmente considerando como a cidade está perto tanto do Rio quanto de São Paulo — e ainda assim, muitas vezes, acaba ficando fora do radar gastronômico nacional.

Não pela necessidade de competir com outras capitais. Mas porque finalmente parece confortável em ser apenas BH. Não vejo a hora de voltar.

Por Renata Araújo. Maio de 2026.

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